Não pretendo fazer deste texto uma resenha ou crítica tardia do filme Magnólia (1999), até porque eu me sinto plenamente satisfeito com aquilo que já foi publicado sobre o filme de P.T. Anderson. Meu objetivo aqui é resgatar um aspecto do filme aplicado a um assunto em particular: a curiosidade humana, a presença do passado e a descontinuidade criativa.
A premissa principal do filme, foi expressa explicitamente mais de uma vez através do longa: “O passado já era para nós, mas não nós para o passado”. De fato, a grande maioria das personagens que se intercalam e interagem na frente da tela são atormentadas pelas suas histórias pessoais e através de atos falhos repetem ações atabalhoadas, carregadas de mágoas e culpas e gerando uma repetição de circunstâncias dramáticas, tristes, nocivas e auto-destrutivas. Existem algumas exceções na trama que dão contraste aos demais personagens e costurarem algumas relações, como o policial que é guiado por um quase ingênuo senso de dever, um enfermeiro compassivo e para interesse do nosso assunto, o garoto considerado um gênio de um programa de auditório, uma pequena enciclopédia ambulante que é visto pelo seu pai e empresário como uma maquininha de dinheiro (o garoto está prestes a ganhar uma bolada de prêmio no programa de auditório).
O garoto é a curiosidade em forma humana... isso explica o fato de saber tanto sobre tantos assuntos, é genuíno seu interesse pelo conhecimento. Em certo momento, ao se dirigir ao estúdio do programa de TV, ele toma uma grande chuva e logo que entra no camarim antes do show, pergunta à assistente apressada, coisas sobre o serviço de metereologia da emissora. A moça, ao mesmo tempo em que o enxuga displicentemente, pergunta se ele quer saber aquilo por causa da tempestade que acaba de tomar, se ele se interessa por tudo o que acontece e arremata antes de sair de cena: “Apenas choveu, simples assim”. A atitude desta personagem secundária é um resumo da atitude dos personagens da trama presos pela premissa do filme. Eles constroem o presente através da repetição do passado, ignorando a emergência das potencialidades do presente, coisa que fascina o garoto, que o torna interessado e aberto ao conhecimento novo.
O filme prossegue em seus dramas até que, diante do pânico e estupefação da maioria das personagens, um fato absolutamente inesperado (e até então impossível) acontece: Uma tempestade de sapos gordos sobre a cidade. Este é um fato novo que não pode passar despercebido por ninguém, e os personagens presos à construção do passado demonstram desnorteio e incredulidade diante do acontecimento. Ficam chocados, não sabem como reagir aquilo, afinal, aquilo não estava presente em seus passados. Em contrapartida, o garoto testemunha este acontecimento com fascínio e exclama: “isso acontece”.
Essa é a chave do filme ao meu entender e é um assunto de grande importância quando tratamos de criatividade.
Whitehead fala sobre o processo de unificação preensiva que explica a continuidade das situações. A preensão é um processo que acontece quando surge o momento presente (circunstância nova), ele “toca” o momento precedente apreendendo ou sentindo-o, herdando suas características e as transcendendo. O momento presente é sujeito, isto é, ele comanda as ações e tem liberdade de fazer inovações à partir da herança do passado. O passado é objeto do momento presente.
Esta teoria encontra ecos correspondentes em teorias como herança genética, autopoiese e morfogenética.
O que importa para o nosso assunto é que o entendimento da continuidade das coisas como preensão do passado e as eventuais descontinuidades que podem surgir no processo, através de inovações no momento presente. As pessoas que estão presas ao passado normalmente não percebem o que pode ser mudado no presente e acabam por estabelecer, inadvertidamente, um comportamento de repetição e rotinas. Ao contrário, aquelas que possuem uma postura curiosa estão atentas às potencialidades inovadoras e as rupturas criativas do momento presente, são capazes de se admirar com as sutilezas que se apresentam e embarcam na locomotiva da história, sendo elas em si, os inovadores e os criativos capazes de mudar o rumo das coisas.
Quem assistiu Magnólia irá se lembrar da primeira vez que viu a famosa chuva de sapos. Como foi a reação? Alguns sairam indignados do cinema, outros ridicularizaram o filme, outros ficaram perplexos, outros se maravilharam de maneira fascinada com aquilo. A reação a esta cena é um bom termômetro para saber qual das atitudes mentais estava no comando naquele exato momento: Um repetidor de passados ou um criador de futuros?
"Eu não tenho nenhum talento especial. Apenas sou apaixonadamente curioso" Albert Einstein
1 comentários:
A mastria traduzido em Magnólia.
Adorei a revisão.
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